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Mary Ventura – Jornal do Brasil, 09/07/1974
 
O desafio do ouro

      O tema central é simples – a relação do artista com o sucesso e o poder. Mas a sua colocação é ambiciosa – o sucesso e o poder têm uma representação, o ouro, que poderá ser negativo e corruptor, como o de Midas, o transformador e mítico, como o dos alquimistas: Para dar forma a essa idéia em A Cena Muda, Fauzi Arap veste Maria Bethânia e o palco do Teatro Casa Grande de dourado e, num trabalho conjunto, seleciona um repertório até certo ponto alusivo. Para os espectadores, porém; o importante é ter Maria Bethânia diante dos olhos, seja qual for a proposição que ela ofereça. Para o êxito do show isso também é suficiente.

      Muito distante da cantora convencional que apenas transmite o recado do compositor, Bethânia mais uma vez reforça sua carga de atriz – na verdade, intérprete de si própria – pra dar vida a mais de 30 composições que se sucedem quase sem pausas (poucas, aliás, são musicais e nem tão felizes, como quando o conjunto afirma: "Yes, nós temos Bethânia / Bethânia pra dar a vender, / Bethânia, menina, / é nossa heroína, / Bethânia temos pra vender", o que, no mínimo, é bastante pobre em matéria de paródia). Um pout-pourri de músicas de carnaval tem o tom certo e a malícia que as letras requerem, assim como as canções de Chico Buarque, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, o samba de breque... Nada de arranjos novos ou originais, mas a música soa diferente.

      Circulando pelo palco criado por Flávio Império, Bethânia apresenta também uma série de canções inéditas (sete de Sueli Costa) que certamente não se transformarão em grandes sucessos mas que servem sob medida ao seu estilo – de artista e de vida. E é esse estilo que ela impõe durante todo o desenrolar do espetáculo, transmitindo, mais do que a idéia elaborada pelo diretor, a sua própria verdade. Apesar do alto profissionalismo da produção, revelado na iluminação funcional, no belo cenário, no som correto, o que conta afinal é a sua presença e o seu canto, ambos extravasando a força de uma grande artista.

      Assim, A Cena Muda deverá repetir o sucesso nacional de seu show anterior, Drama, inclusive porque foram agora eliminadas as passagens literárias de gosto discutível, ficando tudo no reino da música. Conciliando os dois pólos do ouro – Midas e o símbolo da alquimia – Bethânia talvez seja, em nossos dias a única intérprete que permanece solidamente instalada nessa faixa estreita, perigosa e de tão instável equilíbrio.

A platéia está feliz.

Parodiando uma das músicas – "platéia ainda pede bis / O que a platéia quer é ser feliz" – as 500 pessoas que assistiram ao show de Maria Bethânia na sexta-feira não queriam nenhum compromisso além admirar sua cantora preferida.

      Meio hipnotizado e preocupado em não perder um só movimento da cantora ou efeito de iluminação, o público se mexia o tempo todo. No intervalo, grupos pareciam surpresos por Bethânia não ter mudado nenhuma vez de roupa. O mais importante, para uma parte considerável, é ver Maria Bethânia. Ouvir fica sendo complemento. "É maravilhosa. Gosto de acompanhar o jeito especial como se movimenta no palco. Todo mundo diz que ela é feia. Eu não acho. No palco fica linda" (Ednilda Porto, 35 anos, professora). Imponentes casacos de vison e nostálgicos voillettes ressaltavam algumas entre a grande maioria de mulheres presentes, que acima de assistirem a um espetáculo musical, pareciam participar de um acontecimento.

      A opinião do público sobre o show está muito ligada à presença cênica. Poucos se preocupam com um julgamento artístico de Bethânia ou com a qualidade da montagem. A maioria das opiniões se fixa na intérprete, na figura charmosa, na baiana que venceu na vida.

      — Não perco um só show. Compro todos os discos. Este espetáculo é tão bom quanto os outros. Bethânia é a única cantora brasileira que interpreta. Ela vive as músicas e acho que essa é a causa do seu sucesso (Ana Maria Peixoto, 30 anos, educadora).

      — Quem não gosta de Bethânia? Este show está muito bom, não existe intérprete como ela. Além disso, está linda (Marco Antônio Camargo, 28 anos, estudante de Engenharia).

      — Não vou muito a shows. Acho meio cansativo uma pessoa o tempo todo em cena, mas da Bethânia é o segundo que assisto sem me arrepender. Ela é incrível, consegue transportar o espectador para dentro da música. A primeira parte foi um pouco longa, mas esse é um detalhe sem importância (Magda Maciel, 25 anos, secretária).

      — Só uma vez por ano temos a oportunidade de assistir a um espetáculo musical realmente bem feito. Bethânia canta bem, dança bem a tem uma presença espantosa. Melhor que ela só a Edith Piaff (Suzana Freitas, advogada).

      — Pretendo ver o show mais algumas vezes, como sempre faço. Ver Bethânia é a única opção onde depois do espetáculo a gente não se arrepende de ter gasto todo aquele dinheiro (Oswaldo e Ana Macedo, engenheiro e Dona-de-casa).

      — Bethânia perde muito quando começa a apelar para outros recursos que não a sua excelente voz. Ela é péssima atriz a dança muito mal. Ela sabe cantar, e deveria fazer só isso. Esse negócio de cantar deitada no chão, ou a exploração do sangue latino (músicas em espanhol), vira mau gosto e apelação. A segunda parte do show é bem melhor, porque ela se preocupa mais em cantar do que fazer mise-en-sçène (Carlos Eduardo, professor de sociologia).


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"O mais importante, para uma parte considerável do público, é ver Maria Bethânia. Ouvir fica sendo complemento."