Folha de S. Paulo, 10/06/1975
O canto nervoso de Chico e Bethânia

Rio (sucursal) – Os dois são talvez os mais conhecidos nomes da música popular. Suas carreiras, há dez anos atrás, apoiavam-se no contato íntimo com os setores mais arrojados da cultura: fase de teatros pequenos e espetáculos nas universidades onde o idealismo era mais importante que a profissionalização Por caminhos aparentemente diferentes – Chico, o Brasil brasileiro, do samba urbano, da fase lúcida do pós-bossa nova, a Bethânia o ímpeto, a garra do tropicalismo, a renovação, são campeões em vendagem, e conquistaram um público que cresceu numericamente e em fidelidade. Chico, já se disse, estaria para Mário de Andrade assim como Caetano e Bethânia para Oswald.

Muitos sambas depois, em 1975, as duas correntes, que já se disse até serem antagônicas, estão juntas outra vez (Chico a Caetano fizeram um memórável show em Salvador, em 1973), num espetáculo alegre e fundo, onde o público se não está sério; concentrado, se entrega num permanente meio-sorriso – de aceitação. Chico e Bethânia no Canecão equilibram a introversão com o drama, a eloqüência.

Duas horas antes de começar o espétáculo a censura decidiu cortar Tanto Mar, música nova de Chico, aguardada com expectativa, feita para um amigo de Moçambique, comemorando a independência daquele país, em 25 de junho. O boicote, ainda que previsível, só fez aumentar a tensão da estréia, sempre muito difícil para a famosa timidez do compositor.

Enquanto os dois se preparavam, a própria platéia dava espontaneamente seu show: todos os setores da cultura estavam bem representados na estréia. As mesas reuniram grupos específicos, intelectuais, artistas de teatro, de televisão e gente de cinema. Mesa maior reunia Caetano Veloso, Gal Costa, Nara Leão e Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Gilberto Gil e Erasmo Carlos, conversando animadamente. No meio do salão uma outra: Marieta Severo, Marília Pera, Nelson Mota, Fauzi Arap, Helinho e Maria Tereza Lima, Zezé Mota, Suzana Sereno e Marcus Nanini.

Chico entrou no palco evidentemente nervoso. Principiou um Olé Olá tenso, até que, pela outra entrada, perfeitamente solta, Bethânia entrou radiante e o aliviou; juntos cantaram Sinal Fechado, de Paulinho da Viola. Muito aplaudidos – cantou Esse Cara e, ao iniciar Sem Fantasia, de repente, calam-se os microfones.

Um nervosismo pesado abate todos enquanto, de luzes apagadas os técnicos do Canecão correndo de um lado para outro; em pânico, os dois artistas sentam-se na passarela. Uma senhora se levanta de uma das mesas mais perto aproxima-se de Chico e pergunta solidariamente cúmplice se quer tomar um gole de uisque. Ele aceita na hora, mas enquanto ela volta para encher o copo, uma outra senhora, mais idosa vai até ele, pega-lhe maternalmente as mãos e diz alguma coisa carinhosa que o compositor retruca com um sorriso, acostumado.

Equilíbrio

O espetáculo atinge o equilíbrio. Bethânia canta Sem Açúcar, música nova feita para ela por Chico, especialmente, a letra forte reforada pela interpretação atirada: Sua boca é um cadeado/meu corpo é uma fogueira/enquanto ele dorme pesado/eu rolo sozinha na esteira/de dia sou sua flor/de noite sou seu cavalo". Chico mantém o clima e retruca com Com Açúcar e com Afeto.

Quando Bethânia recomeça, outra vez os microfones param de funcionar, mas é ela mesma quem, muito calma, controla: "Assim não é possível. Por favor, maestro, o número todo outra vez... eu mereço".

Gita, de Raul Seixas, cantada em profusão de gestos e expressões arranca os primeiros bis do público. Ela não concede e inicia Ela Desatinou, com a presença, no palco, de um mestre-sala e de uma porta-bandeira da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel.

Chico praticamente define o espetáculo, com Vai Levando, de parceria com Caetano: "Mesmo com nada feito/ com a sala escura/ com nó no peito/ com a cara dura/ não tem mais jeito/ a gente não tem cura/ mesmo com toda a vida/ por todo o dia/ com todo dia/ todo não ia/ a gente vai levando".

Juntos os dois cantam Quem te Viu Quem te Vê, o que o público acompanha do começo o fim. Os dois se encaram fixamente, sorriem um para o outro, num meio-namoro que a platéia estimula encantada. Bethânia aproxima-se e encosta-se nas costas de Chico, no banquinho.

Figurantes da Escola de Samba Mocidade Independente entram, de verde e branco brilhante, umas vinte pessoas, passistas, mestre-sala e porta-bandeira, para o final. Todos cantam Quem é Você. De braços dados Chico e Bethânia se retiram pela mesma entrada. Gaia, o maestro, canta e dança na Casaca Preta, aliviado com o sucesso.

A quadra da Escola de Samba com o teto estrelado, todo embandeirado de branco, que Oswaldo Loureiro bolou com a assessoria de Caetano e Ruy Guerra, em que foi transformado o palco do Canecão, agita-se com as pessoas levantando. Perinho de Albuquerque, diretor musical, sorri para Caetano na mesa. Luiz Cláudio, arranjador do Terra Trio, bate nas costas de Franklin, que dá os últimos trinados na flauta.

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