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Jornal da Tarde, 06/06/1975
 
Chico e Bethânia cantando, para compor com mais liberdade

No palco, quase uma escola de samba

Para Chico Buarque, um trabalho como o show do Canecão, mesmo com a garantia antecipada de grande sucesso, está longe do que ele considera ideal para um artista. E, se depender de sua vontade, será a última "superprodução" de que participa.

      — Meu trabalho não é esse. Sou um compositor, um escritor. Agora a temperatura está muito alta e preciso de outros caminhos. Não tenho vergonha de dizer que estou com problemas financeiros e que este show, no seu primeiro mês, vai servir para liquidar minhas dívidas. Depois, o dinheiro vai me dar independência por um ano: vou então montar uma peça de teatro que estou escrevendo com Paulo Pontes.

      A Gota D'Água, nome de uma de suas novas músicas, é o título da peça. E sua preocupação é fazer "um espetáculo popular, que não custe Cr$ 60,00 por pessoa". "Ultimamente", explica Chico, "fui obrigado pelo contrato que me prende à gravadora, a fazer pelo menos um disco por ano, gravando músicas de outros compositores, o que acho uma ousadia para quem, como eu, não é um cantor". Para chegar ao povo, entretanto, Chico continua sistematicamente se recusando a utilizar da tevê, para ele "um veículo inviável".

      — A idéia de ser usado como peça de engrenagem e estar num mesmo esquema de massificação e alienação me horroriza. Enquanto a televisão for monopólio de uma rede, capaz de tudo, não participo dela.

      Chico também de Fazenda Modelo, cujo sucesso (o livro é mais vendido do país e chega à sua sexta edição) o surpreendeu "e rendeu alguma coisa". "Mas compor continua sendo principal atividade". Isto certamente o levou a criar Julinho da Adelaide, premiado semana passada pela APCA o compositor revelação, mas esta solução acabou gerando um novo problema:

— Agora o compositor tem de mandar para a Censura seu nome completo, número de CPF, etc. Os homônimos e heterônimos não valem. Pode ser apenas uma coincidência; mas o fato é que esta decisão foi tomada na mesma época em que Julinho da Adelaide apareceu. O que eu pretendo mesmo é parar com esse tipo de show para poder trabalhar. Só não garanto mesmo que seja o último porque posso, de repente, assinar um contrato com o Cosmos.

      Nas duas últimas músicas do show, Quem Te Viu, Quem Te Vê e A Noite dos Mascarados, Chico Buarque de Hollanda e Maria Bethânia, cantando juntos pela primeira vez em público, serão levados, no meio da multidão, por uma pequena escola de samba.

      Essa multidão, calculada em duas mil pessoas para cada noite, começa hoje, às 22 horas, a encher as gigantescas dependências da boate Canecão, do Rio de Janeiro, para assistir ao mais caro show da música popular brasileira, pagando Cr$ 60,00 por ingresso.

      Criado por Chico Buarque, Ruy Guerra, Ceatano Veloso, Oswaldo Loureiro (também diretor do espetáculo) e com arranjos do maestro Gaya. Chico e Bethânia, segundo seus promotores, custou um milhão e meio de cruzeiros a deverá ficar em cartaz na boate até o dia 2 de novembro. As 24 músicas cantadas por Bethânia e Chico não serão ouvidas ao vivo em nenhuma outra cidade, mas seu lançamento em disco já está sendo anunciado pela gravadora Phonogram.

      — Fico muito nervoso com o público, mas sinto uma vontade danada de cantar, embora não seja um cantor.

      Chico, antes da estréia, é o contrário de Bethânia "Eu me dou toda no palco. Quero cantar, sentir e representar". Ela é cantora e atriz durante todo o espetáculo. Principalmente em Sinal Fechado, de Paulinho da Viola, que pela primeira vez será cantada como se fosse um diálogo, com cada um dos intérpretes num canto do palco. Das músicas de Chico, seis são inéditas. Uma delas foi feita em parceria com Caetano Veloso e outra, Tanto Mar, que ele canta com raiva, teve algumas modificações impostas pela Censura.

      Outro grande momento do espetáculo será Acorda Amor, composta pelo próprio Chico com pseudônimo de Julinho da Adelaide, que conta com a participação de figurantes e termina com vários negros correndo no palco escuro, tiros e sirene da polícia, enquanto Chico grita "Chame o ladrão, chame o ladrão".

      Há ainda uma canção de Chico feita especialmente para Bethânia, Sem Açúcar, seguida por um sucesso antigo, Com Açúcar e com Afeto, e dois momentos da cantora sozinha: em Gita de Raul Seixas, e Ela Desatinou de Chico, acompanhada pela bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel.

O diretor Oswaldo Loureiro diz que procurou "tornar a decoração a mais simples possível e em tudo tenta imitar uma quadra de escola da samba". As cores, azul e branco, são obrigatórias: as mesmas do maço de cigarros Minister, que patrocina o espetáculo.


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"Enquanto a televisão for monopólio de uma rede, capaz de tudo, não participo dela."
Chico Buarque de Holanda